E se a morte ensinar a viver?

E se a morte ensinar a viver?

“Cada dia da minha vida vivi,
Pensando que noutro dia viveria,
Então morri,
Pensando um dia ter vivido.”
(Vitti F. F.)

No meu caminho para casa tem um cemitério. O trânsito às vezes para e eu fico a contemplar.

Um velho muro, as pontas das lápides buscando um céu algumas vezes azul, outras nublado ou chuvoso.

Duas palmeiras e uma araucária se sobressaem, ali onde os símbolos da morte e da vida estão tão próximos.

Penso nas vidas que já tiveram suas oportunidades e um dia se foram. No legado que deixaram. Na dor, na alegria, nas raivas ou medos que tiveram, nas paixões que as embalaram, nas pessoas que amaram, nos amigos que cultivaram, nos sonhos pelos quais lutaram. O quanto viveram enquanto vivas.

Se a morte lembra o medo ou a tristeza, pode também trazer o convite para apreciar a vida enquanto possível.

Penso no romper dos ciclos ao longo da existência: separações, perda de saúde, revezes acadêmicos, empreendimentos ou empregos que findaram, preocupações com problemas não resolvidos.

Durante o viver podemos ter essas ou outras pequenas mortes, com seus lutos. Conforme nossa atitude, podem rebentar as sementes para grandes momentos de vida. Do inverno para a primavera, do gérmen na terra orvalhada para a luz do sol.

Penso na tendência do ser humano a resistir, continuar apegado ao que já foi: ideias, pessoas, situações, sentimentos. A velha insistência em manter o sofrimento conhecido por medo de sofrer com novas realidades. A morte em vida, na verdade.

Às vezes é melhor deixar que vá. E, mesmo com dor, em outros casos é preciso ir. Agir, convocar a coragem e encerrar um ciclo para fazer acontecer outro. Desapegar do que parece confortável, mas pesa. E assim se permitir viver mais livre e leve, conquistar novos momentos, com vida.

Dentre as várias lições de vida que podemos colher da morte, talvez essa seja a mais enfática, pelo chamado incisivo a protagonizar a própria existência e a viver intensamente:

“Entre o nascer e o morrer há um intervalo de tempo em que nos é permitido viver: é nossa escolha aproveitar ou não essa oportunidade.” (Psicólogo Pascoal Zani no YouTube)

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